quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

2010

"O início de um ano traz consigo a promessa de dias inteiros novinhos em folha, de semanas por estrear, de meses para encher de coisas boas e de acontecimentos inesquéciveis. É sempre nesta altura que temos a certeza (ou a esperança...) de que finalmente a nossa vida vai mudar, que vamos encontrar o que procuramos (mesmo que não saibamos mesmo o que é), conseguir realizar parte dos nossos sonhos e cumprir tudo aquilo que há tanto tempos nos propomos e que acaba sempre por ficar adiado. É pelo menos no que acreditamos quando cumprimos os rituais das 12 passas, do champanhe da meia-noite, da entrada com o pé direito, da festa com que saudamos o que de novo vai entrar na nossa vida. Também sabemos que este "paraíso" sonhado se desvanece com a última badalada e que nem só de boas coisas se fará um ano que começa novo e cheio de energia mas que acabará velho, cansado e muitas vezes esfrangalhado pelo inesperado que interrompeu os nossos planos e nos fez mudar de rumo. É por isso que gostamos de manter a tradição de mandar embora o "ano velho" com imenso barulho, empurrando o que de desagradável nele houve com o som das colheres de pau a bater nos tachos e nas tampas das panelas mais estragadas que há lá em casa. É uma forma de exorcisarmos os nossos temores, de nos prepararmos para enfrentar um dia-a-dia que tem mais dificuldades e contrariedades do que desejaríamos.
2010 vai ser um ano difícil. A nível económico, claro, político, quase de certeza. Mas não tem de ser necessariamente negativo a nivel individual - as crises ajudam-noss a reorganizar prioridades e valores e perceber que a mudança não tem de passar por outra casa, outro carro ou outro emprego. Há um mundo de possibilidades dentro de nós á espera de que tenhamos tempo de as descobrir. Talvez 2010 seja um bom ano para o fazer!"
in nm

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

ir vs voltar


" (...) olhou pela janela o círculo completo do quadrante da rosa náutica, o horizonte nítido, o céu de Dezembro sem uma única nuvem, as águas para sempre navegáveis e disse:
- Sigamos em frente, sempre em frente, outra vez até La Dorada.
Fermina Daza sentiu-se estremecer porque reconheceu a antiga voz iluminada pela graça do Espírito Santo e olhou para o comandante: ele era o destino. Mas o comandante não a viu, porque estava inundado pelo tremendo poder de inspiração de Florentino Ariza.
- Está a falar a sério? - perguntou-lhe.
- Desde que nasci - disse Florentino Ariza - nunca disse uma única coisa que não fosse a sério.
O comandante olhou para Fermina Daza e viu nas suas pestanas os primeiros pingos de um orvalho de Inverno. Depois olhou para Florentino Ariza, o seu domínio invencível, o seu amor impávido, e ficou assustado pela suspeita tardia de que é a vida, mais que a morte, que não tem limites.
- E até quando pensa o senhor que podemos continuar neste ir e vir dum caralho? - perguntou-lhe.
Florentino Ariza tinha a resposta preparada há já cinquenta e três anos, sete meses e onze dias com todas as suas noites.
- Toda a vida."
Gabriel García Márquez
"O amor nos tempos de cólera"

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

peso vs leveza

“Se cada segundo das nossas vidas se repete infinitas vezes, somos pregados à eternidade como Jesus Cristo à cruz. É uma perspectiva aterrorizante. No mundo do eterno retorno, o peso da responsabilidade insuportável recai sobre cada movimento que fazemos. É por isso que Nietzsche chamou à ideia do eterno retorno o mais pesado dos fardos (das Schwerste Gewicht).
Se o eterno retorno é o mais pesado dos fardos, então as nossas vidas contrapõem-se a ele em toda a sua esplêndida leveza.
Mas será o peso, de facto, deplorável, e esplêndida a leveza?

O mais pesado dos fardos esmaga-nos; sob o seu peso afundamo-nos, somos pregados ao chão. E, no entanto, na poesia amorosa de todas as épocas, a mulher anseia por sucumbir ao peso do corpo do homem. O mais pesado dos fardos é, pois, simultaneamente, uma imagem da mais intensa plenitude da vida. Quanto mais pesado o fardo, mais as nossas vidas se aproximam da terra, tornando-se mais reais e verdadeiras. Inversamente, a ausência absoluta de um fardo faz com que o homem se torne mais leve do que o ar, fá-lo alçar-se às alturas, abandonar a terra e a sua existência terrena, tornando-o apenas parcialmente real, os seus movimentos tão livres quanto insignificantes. O que escolheremos então? O peso ou a leveza?

Parmênides levantou essa mesma questão no sexto século antes de Cristo. Ele via o mundo dividido em pares opostos: luz/escuridão, fineza/rudeza, calor/frio, ser/não-ser. A uma metade da oposição, chamou positiva (luz, fineza, calor, ser); à outra, negativa. Poderíamos achar esta divisão num pólo positivo e noutro negativo infantilmente simples, não fosse uma dificuldade: qual é o positivo, o peso ou a leveza? Parmênides respondeu: a leveza é positiva; o peso, negativo. Tinha ou não razão? Essa é a questão. Certo é apenas que a oposição leveza/peso é a mais misteriosa, a mais ambígua de todas.”

A insustentável leveza do ser, Milan Kundera